[Notícias de 2022] – Análise do Disco – Junior Lima, Where I Have Been

Publicado: janeiro 16, 2012 por GG em Musicrônica
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[São Paulo, 2022] Talvez poucos se lembrem, ou talvez outros tenham vergonha de se lembrar, mas no início dos anos 90 uma dupla de irmãos alcançou o estrelato na música brasileira principalmente por serem um casal de crianças prodígio. A dupla, Sandy & Junior, foi forçada goela abaixo do brasileiro pelo pai e pelo tio, que formavam (não sei mais se nesta ordem) a dulpa sertaneja Chitãozinho & Xororó, umas das mais bem-sucedidas da nossa história.

Lapidados com muita produção, Sandy e Junior cresceram cada vez mais como estrelas da música nacional, até o ocaso quase no fim da década seguinte, quando cada um resolveu ir para o seu canto. Sandy, a menina bonita de vozinha fina, emendou sem solavancos uma carreira solo com um trabalho muito parecido com o anterior (já que ninguém prestava atenção à voz do irmão). Já Junior teve suas inúmeras e infrutíferas tentativas de projetos com bandas e DJs.

Junior na década passada, época das frustradas tentativas de novos projetos

Junior na década passada, época das frustradas tentativas de novos projetos

Em primeiro momento motivo de chacota, em seguida esquecido, Junior Lima (ele tinha um sobrenome, depois da separação) caiu no caminho das drogas. Por alguns anos, suas únicas aparições na imprensa foram nas páginas policiais, como um ex-famoso preso na boca-de-fumo, por duas ou três vezes. Mas este texto não estaria sendo escrito se Junior não tivesse voltado do fundo do poço.

Irreconhecível, Junior chegou a posar pra foto com drogas

Irreconhecível, Junior chegou a posar pra foto com drogas

Depois de anos de tratamento, o vício foi superado e a volta foi programada. Junior se enfurnou em estúdios para se redescobrir musicalmente e reapareceu no fim de 2021 com um disco solo, Where I Have Been.

Deixe seu preconceito de lado. O disco é uma obra de arte. Junior buscou novas influências e fez incríveis e improváveis parcerias com seus antigos e novos ídolos da música, e criando seu novo estilo com muitas guitarras, bumbos e teclados em melodias ora progressivas, ora agressivas.

Produzido por Sascha Paeth, famoso por trabalhar com muitos dos maiores nomes do rock mundial, Junior tocou bateria e algumas guitarras, além de obviamente ser o vocalista/personagem principal de sua própria história. Paeth tocou a maioria das guitarras e o contrabaixo. Teclados e pianos foram tocados pelo brasileiro Fabio Laguna, outro internacionalmente rodado e talentoso músico.

Capa do disco - Junior Lima - Where I Have Been

Capa do disco - Junior Lima - Where I Have Been

Abaixo, faixa a faixa, a análise do disco.

The fall
Praticamente uma recapitulação da carreira. Um início simples, praticamente infantil, com batidas de tambores, que progride para um rockabilly por alguns minutos, até que subitamente um ar sombrio toma conta do som, com teclados sotlando acordes incômodos e guitarras afinadas em vários tons abaixo do normal. A atmosfera de pesadelo traz um vocal em tom de lamento. Uma mistura estranha, difícil de se digerir à primeira audição, mas repleta de significado e muito bem trabalhada, excelente abertura para o disco.

Look into my eyes
Esta faixa traz a participação especial do baterista Mike Portnoy, ex Dream Theater, e é uma clara referência à The Mirror, faixa que o baterista convidado compôs sobre a sua própria luta contra o vício em álcool. Pesada do início ao fim, mas com variações de andamento, trata do momento em que Junior percebe para onde sua vida está indo – o buraco – e tenta se convencer a resistir ao encanto das drogas, o que não consegue. Disparadamente a melhor música.

Agony
Fracassado, Junior se encontra no inferno, onde sofre diariamente do mesmo mal, e mesmo vendo a porta de saída, não tem força de vontade para alcançá-la. Um dos grandes momentos do disco é a discussão entre Junior e seus demônios pessoais, encarnados pelo convidado Jon Oliva. Jon, que também sofreu do mesmo mal, relembra aqui momentos como Mentally Yours, do Savatage, onde também cantou sua luta contra as drogas: seu vocal é penetrante e chega a causar medo, demonstrando uma maldade muito convincente. De fundo, um metal quase industrial, à moda de Rammstein.

There’s no fighting back
Seduzido pelo mal, Junior se deixa levar pelas drogas, em seu momento fundo-do-poço. Um hard-rock com um riff realmente viciante e com um lindo solo de Brian May, é o momento do disco que pode levar muito marmanjo às lágrimas.

The angel within
Um anjo intruso, cuja voz se faz cada vez mais alta na cabeça do personagem, interpretado por André Matos, aos poucos traz Junior de volta à consciência de sua situação. Uma música calma e com refrão bonito e pegajoso, daqueles momentos onde se acende o isqueiro com as mãos pro alto e todos cantam junto. No fim, Junior percebe que o anjo esteve o tempo inteiro dentro de si e não era nada mais que seu amor-próprio.

The helping hand
A devastadora voz de Bruce Dickinson é a do homem que ajuda Junior a se levantar e começar a luta. Em interpretação antológica do vocalista inglês, mostrando sofrimento e compaixão, o homem é alguém cuja missão é ajudar e cujo destino é continuar sofrendo. Steve Harris participa no contrabaixo, o que faz da faixa praticamente uma música do Iron Maiden, como que retirada diretamente de Powerslave. Talvez empolgado com a companhia, Junior tem também seu auge no vocal e faz uma levada interessantíssima na bateria. E o homem que o ajudou, embora nada seja explicitado, pode ser uma analogia a Jesus Cristo.

Where have you been?
Com muito esforço, livre do inferno, Junior reencontra seus amados. Irritado por achar que foi abandonado, descobre que eles sempre estiveram procurando por ele e tentando salvá-lo, porém não conseguiram por culpa dele próprio, que fugiu e se escondeu antes de cair em desgraça. Finalmente convencido pelo amor da família, representado pela macia voz da (deliciosa) Simone Simons (talvez em analogia à voz de Sandy, que preferiu não participar do disco, uma ótima troca), Junior cai em pranto, enxergando tudo que fez e finalmente se sentindo livre de tudo que passou.

Where I have been
Em paz consigo e com os velhos amigos e parentes, Junior canta sua história num tocante encontro com seu pai, Xororó, num improvável speed metal com guitarras dobradas de Andreas Kisser e Sascha Paeth e os bumbos duplos de Aquiles Priester. O tom de clímax é convincente, o problema é que o disco não acaba depois desta faixa.

Vida Nova
Uma faixa clichê com título clichê, desnecessária mas que não consegue estragar a obra, e não deixa de ser interessante. Acompanhado por violão e piano, Junior conta suas esperanças para a vida que começa agora, acalma os ânimos da pauleira do disco e encerra com frases otimistas.

O otimismo maior ao fim do disco é do ouvinte. Um disco de rock pesado bem produzido e com grandes interpretações e convidados de altíssimo nível como há muito não era feito no Brasil (foi produzido em estúdios na Alemanha, mas você entendeu o que eu quis dizer) nos traz esperanças de que uma nova onda de rock  internacionalmente reconhecível possa surgir no país, lembrando nossas épocas de Viper, Sepultura, Angra e Shaman, de um embalo que acabou há mais de 15 anos.

A esperar então que a imprensa nacional dê o devido valor ao lançamento. E que possa render mais frutos!

Ficha Técnica
Álbum: Where I have been
Artista: Junior Lima
Produção: Sascha Paeth e Junior Lima
Duração: 52 minutos
Participações: Mike Portnoy (ex-Dream Theater), Jon Oliva (Savatage, TransSiberian Orchestra, Jon Oliva’s Pain), Brian May (Queen), André Matos (ex-Angra, ex-Shaman), Bruce Dickinson e Steve Harris (Iron Maiden), Simone Simons (Epica), Andreas Kisser (Sepultura), Xororó (Chitãozinho & Xororó).

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Comentários
  1. Ron Groo disse:

    Sei que vou me arrepender, mas… vou procurar este disco pra ouvir.
    To achando que é pegadinha sua.

  2. thiago moraes disse:

    Post fenomenal!

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